O QUE ABSTRAI A ABSTRAÇÃO

No seu sentido mais amplo, toda a imagem já é uma abstração da realidade, no entanto a pintura abstrata exige que ultrapassemos etapas importantes do nosso conhecimento e exige de nós, espectador ou artista, uma reflexão sobre a prática pictural além do estudo profundo da história da arte e da cultura.

Celso Izidoro é um pintor autodidata, que como muitos outros pintores brasileiros, nasceu longe dos centros urbanos, inicialmente sem acesso às informações artísticas contemporâneas.

A arte é uma necessidade, o artista não escolhe data ou lugar, vem do seu impulso interior, da vontade incontrolável de se manifestar, o que Kandinsky falava como "necessidade interior": "a forma é a expressão exterior de um conteúdo interior", que pode se realizar tanto na figura como na abstração.

Celso se aproxima da arte muito jovem, faz pequenas esculturas de santos em pedra sabão, mas desenha a carvão nos muros, buscando as grandes formas, faltou-lhe aqui a orientação plástica e artística, pois a arte não é pura expressão, é também razão, e temos que disciplinar nossos impulso segundo um meio e um material. Isto ele teve que aprender sozinho, mas logo que se sentiu seguro, se pôs a ensinar – era a necessidade de criar um espaço no qual pudesse desenvolver sua vontade artística. Não só pela forma, mas principalmente pela história, nos faz lembrar de Manabu Mabe que em 1985 deu o seguinte depoimento:

"O que é arte? Qual a finalidade da minha pintura?”.

“Um certo dia pensei sobre tudo isto, e desde então, já se passaram mais de vinte anos.

Foi bom ter pensado, pois o lavrador tornou-se pintor e minha vida mudou.

Pescar lambaris e bagres em riachos do pasto, colher cocos e goiabas, brincar de correr atrás dos pássaros, são como poesias líricas inesquecíveis de minha infância.”

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“Em 1958 explodiram as obras abstratas e as telas passaram a pulsar o sangue rubro de esperança e excitamento. Sim, as obras são o registro de minha vida. A partir de então minha vida foi toda talhada de obras.”

Quando Celso vem a Curitiba, em 1981, assimila pouco a pouco a obra de seus contemporâneos, Teca Sandrini, Jussara Age, Fernando Calderari, e outros.

Fez ilustrações e ainda, no início dos anos 80, começou a pintar telas figurativas, cujas figuras alongadas, ainda muito carregadas, demonstravam já sua relação mística entre o ser humano e o mundo. Ele vai tateando pelo que ele mesmo denomina de fases, mas que são mais especificamente a procura de caminhos para chegar a uma síntese; ele parte dos elementos da natureza, como o girassol, por exemplo, carregado de significados após os Girassóis de van Gogh, neles encontra o seu mundo fantástico, onírico. A seguir, geometriza as formas procurando essências, sai do desenho complexo em busca novamente da síntese e seu pincel também acompanha esta evolução.

No final dos anos 80, preso aos ideais místico, surge nele uma linguagem simbólica, de letras e signos, semelhantes às inscrições primitivas que lembram escritas mágicas ancestrais.

Aurélio Benitez afirmou que “há um certo clima bíblico em determinados quadros. Assim como há sinais que podem pertencer a uma linguagem mística, ...”. Mas estas obras demonstram sempre a sua vontade de síntese, de limpeza da superfície pictórica, do abandono do aglomerado de formas, quando tudo parece buscar a luz. Desde 1987 vem novamente tateando numa nova linguagem que ele mesmo chama abstrata.

A abstração é um trabalho de pesquisa formal. Celso jamais abandona a figura, ele sobrevive da sua arte, o que ainda é raro em nossos dias, por vezes é obrigado a recorrer à realidade objetiva dos retratos de personalidades para se manter economicamente, mas mesmo assim, com todas as dificuldades de se impor um programa estético, ele continua buscando a liberdade, seja ela no gesto, na matéria pictórica, nos signos ou no lirismo de suas telas. Abstração, sem, no entanto, abandonar por completo a relação com o figurativo.

Novamente morando em contato direto com a natureza, mas quase no centro de Curitiba, as abstrações de Celso Izidoro, no seu caráter decorativo, são deslumbramentos com as formas e as cores desta natureza misticamente emaranhadas entre si: há, pois, um lado mágico no girassol quando ele segue o sol, nos afirma ele. Sua obra é resultado de um aprendizado empírico, aprendeu fazendo no processo de tentativa de erro e acerto, muitas telas devem ter sido jogadas fora. Mas seu trabalho vem da intuição primitiva, própria do verdadeiro artista, sofrido e de uma imensa vontade de expressão.

A relação dos pintores com a espiritualidade não é um fato novo, esteve em Kandinsky, Mondrian e Malevitch, mas ainda se afirma em nossos dias, ainda esperamos utopicamente, buscar a desmaterialização para escapar ao peso de nosso planeta. A pintura de Celso Izidoro, de efeitos cromáticos e luminosos quer chegar no limite das coisas, da luz, da matéria, em busca do despojamento e de um ideal místico de encontro com o seu próprio universo interior.

Fernando A. F. Bini

Professor de História da Arte e Crítico de Arte,
membro da ABCA(Associação Brasileira dos críticos de arte)
e da AICA(Associação Internacional dos Críticos de Arte)

Março de 2006